Todo domingo, antes mesmo de a Feira Hippie de Belo Horizonte receber os primeiros visitantes, Márgelo Barbosa de Anchieta Rosa já está diante de sua barraca. Entre fios, agulhas e bolsas, trabalha enquanto conversa com quem passa.
Para quem vê apenas o artesão confeccionando peças ali, é difícil imaginar que aquelas bolsas já chegaram à Suíça, França, Alemanha, Espanha, Portugal, Itália e Estados Unidos. Ou que, por trás de cada ponto, existe uma rede formada por mais de 35 mulheres que encontraram no artesanato uma oportunidade de recomeço e de gerar renda.
O reconhecimento nacional e internacional de seu trabalho veio recentemente, aos 68 anos. Mas a história com a arte começou muito antes. Aos seis anos já fazia colares com sementes, desenhava e já entendia que a arte fazia parte de dele. “Era como se eu tivesse vindo para essa missão. A criatividade sempre apareceu de forma espontânea, sem influência direta de familiares ou professores. Era um impulso difícil de explicar e impossível de abandonar”, relembra.
Foi ainda jovem que começou a ajudar uma artesã na Feira Hippie, quando ainda era na Praça da Liberdade. Pouco tempo depois, aos 18 anos, conquistou sua própria licença para expor na feira de artesanato. Desde então, há quase 50 anos, nunca deixou aquele espaço. Hoje, sua barraca fica na vaga 37, na no setor I, de frente para o quadro de anúncios de shows do Palácio das Artes.
Ao longo da vida, Márgelo colecionou profissões. Foi florista, decorador de igreja, estilista de vestidos de noiva, vitrinista da antiga Mesbla, cabeleireiro. Ele se formou em Letras, mas nunca quis dar aulas. Preferiu viver da arte.
Durante muitos anos, produziu chapéus, cintos e bolsas de couro. Mais tarde, percebeu que o comportamento dos consumidores estava mudando. A sustentabilidade começava a ganhar espaço e ele decidiu acompanhar esse movimento. Primeiro substituiu o couro por materiais sintéticos. Depois decidiu trabalhar exclusivamente com fios e tecidos reciclados.
Dois anos antes da pandemia da Covid-19, começou a experimentar o macramê e o crochê. Comprou fios, estudou novas técnicas e, durante o período de isolamento social, dedicou-se a desenvolver uma coleção inteira.
Quando a Feira Hippie voltou a funcionar, o mercado vivia exatamente aquilo que ele havia antecipado: o feito à mão tinha se transformado em tendência. “Eu sempre pesquiso muito. Acompanho desfiles, observo o que está acontecendo lá fora e tento trazer isso para a nossa realidade. Percebi que o artesanal estava sendo muito valorizado e me dediquei ainda mais”, ressalta.
Hoje, suas bolsas carregam, além do design autoral, um compromisso ambiental. Boa parte é confeccionada com fios produzidos a partir de resíduos da indústria têxtil — sobras de malhas que seriam descartadas e voltam ao mercado como matéria-prima. Outras utilizam fios fabricados com poliéster reciclado, proveniente de garrafas PET.

O boom
Mas foi um encontro inesperado que mudou completamente a escala do negócio. Em março de 2025, uma influenciadora digital conheceu sua banca na Feira Hippie, comprou uma bolsa e gravou um vídeo mostrando o trabalho do artesão. Quando a publicação foi ao ar, seu telefone começou a tocar sem parar.
As cinco bolsas que ainda restavam em casa foram vendidas em menos de quinze minutos. Em pouco tempo, começaram a chegar mensagens de clientes de vários estados brasileiros e até mesmo do exterior.
Antes do “boom”, como ele marca o tempo de antes e depois, a cada domingo eram vendidas cerca de 5 bolsas. Depois, entre 20 e 30 peças. Sem contar a venda online, que já chegou a 60 bolsas em um único mês.
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A primeira venda internacional foi para os Estados Unidos. Depois, países como Suíça, Itália, Alemanha, Portugal, França e Espanha também receberam as bolsas de Márgelo. Recentemente, foram 18 bolsas para a Espanha.
A produção precisou aumentar e o negócio deixou de ser uma atividade individual para se transformar em uma microempresa. Hoje, além da banca na feira, Márgelo abriu uma loja no Mercado Novo, um dos principais polos de economia criativa da capital mineira.

Negócio de família
Com o crescimento vieram também novos desafios. Quando Márgelo ficou conhecido nacional e internacionalmente, a família percebeu que talento sozinho já não era suficiente. Sua irmã, Margely Luiza, passou a cuidar das redes sociais e do relacionamento com clientes. O cunhado assumiu a gestão financeira. A sobrinha, o contato com a imprensa.
Foi justamente nessa etapa que o Sebrae passou a fazer parte da trajetória da família. Frequentadora assídua das capacitações oferecidas pela instituição, Margely buscou cursos de marketing, vendas, comunicação, exportação e gestão no Sebrae Play e no Sebraetec para apoiar o crescimento da empresa. “Ser artista é uma parte da história. Para crescer, precisamos entender de negócio. O Sebrae mostrou que criatividade e gestão precisam caminhar juntas. A arte nasce da inspiração, mas um negócio precisa de planejamento e capacitação para continuar crescendo”, frisa Margely Luiza.

Bolsas que mudam vidas
O crescimento trouxe responsabilidades que vão além das vendas. Atualmente, cerca de 35 mulheres em situação de vulnerabilidade participam da produção das bolsas, distribuídas entre Belo Horizonte, São João del-Rei, São Paulo e outras cidades. Algumas encontraram no trabalho a possibilidade de cuidar dos filhos sem abrir mão da renda. Outras tiveram ali a oportunidade de recomeçar.
Márgelo desenha os modelos, escolhe os fios, define as combinações de cores e acompanha o desenvolvimento das peças. Depois, elas retornam para o acabamento final. “Quando chega a segunda-feira e vou acertar o pagamento delas, eu lembro que não estamos falando somente de bolsas. Tem uma cadeia de pessoas que depende desse trabalho. E essa é a minha maior responsabilidade”, comenta.
De feirante a painelista
Outra experiência marcante foi a participação na Expo Favela 2026, realizada em maio pela Cufa Minas. Márgelo foi um dos convidados para integrar um painel sobre empreendedorismo e encontrou ali um ambiente que ele define como acolhedor. “Eu vi artistas como eu, pessoas que, muitas vezes, não encontram espaço em outros lugares. A Expo Favela abraça quem está começando e faz a gente acreditar que existe lugar para todos”, conta.
Próximo de completar 70 anos, Márgelo continua ocupando sua banca na Feira Hippie todos os domingos. Continua desenhando, pesquisando tendências e criando peças que unem identidade mineira, sustentabilidade e design.
A diferença é que, agora, cada bolsa leva muito mais do que fios entrelaçados. Leva a história de um homem que passou a vida acreditando no trabalho feito à mão e descobriu que alguns reconhecimentos chegam quando talento, propósito e oportunidade finalmente se encontram.
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