A menina negra de cabelos crespos, que brincava na rua sem calçamento da comunidade de São Benedito, município de Barão de Cocais, cresceu percebendo que, ao seu redor, os sonhos eram modestos porque as oportunidades eram raras. Na região central de Minas, Elissandra Flávia Santos, a Sandrinha, tinha uma certeza no coração: construir algo para mudar a realidade que se apresentava tão dura para ela e outras meninas.
A garota que ganhava a vida já aos 15 anos de idade, fazendo faxinas, se tornou uma empresária de sucesso com a Niari Afrocosméticos. “Em cada cabelo crespo que usa Niari vejo a história de uma menina que nunca desistiu de sonhar”, diz a empreendedora. Para ela, a empresa simboliza a luta por identidade, com novas linhas de produtos e propósitos bem definidos: celebrar a beleza negra, resgatar a ancestralidade e, principalmente, dar poder e voz às mulheres crespas e cacheadas.
Hoje, cada linha de produtos recebe um nome que representa o resgate de uma história perdida, um retorno às raízes africanas. ”
Quando olho para trás, e lembro daqueles dias difíceis, das piadas racistas, dos medos, desafios financeiros e falta de apoio, percebo o quanto ter um propósito é importante. A Niarai tornou nossa comunidade mais forte. Apoiamos mulheres negras a revenderem nossos produtos e, juntas, transformamos o mercado da beleza”, reforça.
Trajetória empreendedora
“Quando era doméstica, ficava deslumbrada com a abundância de cosméticos das patroas. Ver os produtos já era um fascínio, um novo universo que se abria. Mas, no meu shampoo, quando eu conseguia comprar, misturava água para dobrar a quantidade, por não saber quando teria condição de ter outro”, lembra.
Cinco anos depois, ela mudou para Divinópolis, onde trabalhou como operadora de caixa, telefonista e, depois, foi responsável pelo guarda volumes de uma loja de cosméticos, onde também atuava como locutora anunciando as ofertas. Nessa época, criou um blog para contar histórias de modelos negras, pois se indignava com as poucas referências afro na moda e na mídia, mas o blog foi hackeado.
Depois disso, se tornou voluntária do Movimento Negro de Divinópolis (Mundi), onde criou um curso para modelos negros, preparando-os para o mercado publicitário. Também estudava jornalismo, trabalhava como trancista, e produzia eventos voltados para questões afro. Foi nessa trajetória que encontrou Patrícia e Karla, que compartilhavam o mesmo tom de pele de Elissandra, e o sonho de ter um negócio voltado para mulheres negras.
Convite que rendeu bons frutos
O ponta pé para empreender veio com um convite da empresária Patrícia Santos para que ela se tornasse sócia na Niari Afrocosméticos. “Inicialmente, recusei, por não ter um centavo para investir. Após várias conversas, entendi que Patrícia era expert em desenvolver cosméticos, mas precisava de uma pessoa com habilidades na área de vendas, marketing e comunicação, além do apoio emocional que é fundamental nos negócios. Aceitei e, em 2016, lançamos a primeira linha”, explica.
Em meio à pandemia, em 2020, quando vários salões de beleza fecharam, as cabeleireiras viram na Niari uma oportunidade para revender os produtos, com condições especiais, e o número de credenciadas cresceu. Em 2023, após anos de terceirização, as três sócias decidiram abrir a fábrica própria que, hoje, desenvolve os produtos para cabelos crespos e cacheados.
“Nesta fase, o apoio do Sebrae Minas foi essencial para nos dar segurança na tomada de decisões importantes, e acesso a conhecimento técnico. Participei de diversas capacitações sobre vendas, precificação, além de consultoria financeira. E para aumentar a visibilidade no mercado, também recorri às capacitações sobre marketing digital”, conta.
Reconhecimento
A história de força, resistência e empreendedorismo levou Elissandra a conquistar o primeiro lugar na categoria “Pequeno Negócio”, da etapa estadual do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios 2024. Ao todo, foram 280 empreendedoras inscritas e 14 finalistas, que são reconhecidas pelo sucesso empresarial, e pelo impacto social e econômico que geram em suas comunidades.
A empreendedora ainda chegou à etapa nacional do prêmio, em Florianópolis (SC). Foram 25 finalistas, e a menina de Barão de Cocais, ex-empregada doméstica, ficou com o segundo lugar nacional. Hoje, ela não precisa misturar água no shampoo para fazer render, mas ainda luta por espaço nas prateleiras para que meninas negras tenham orgulho de olhar no espelho e ver, com todo seu cabelo crespo, o reflexo da força de uma mulher que entendeu que sonhos não precisam ser modestos.
Conheça o negócio da Elissandra Flávia. Visite o perfil da ‘Niari Afrocosméticos’, no Instagram: @niariafrocosmeticos